Revisitar | Descobrir Guerra Junqueiro


Moleirinha: Abertura

Abertura da noite de 1 de Outubro na Fundação A LORD.
Na assistência, muitas pessoas sabiam de cor este poema. Não admira, tanto mais que era texto obrigatório nas selectas desde os finais dos anos 20 do século XX.

A octogenária e sorridente Moleirinha é minhota e faz parte de Os Simples (1892). Sobre este livro escreveu Guerra Junqueiro:

“Quis mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas criaturas, que atravessam um mundo de miséria e de injustiças, de vícios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de medição para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha octogenária e sorridente, no cavador trágico, nos mendigos bíblicos, na mansidão dos bois arroteando os campos e nas lavaredas d’oiro do castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infância, iluminando a choupana.
E, depois de uma existência de sacrifício e de pureza, d’abnegação e de bondade, deitei esses ingénuos e pobres aldeões na terra misericordiosa e florida do campo-santo, pondo-lhes por cima das sepulturas rasas o Céu maravilhoso e cândido, que em vida sonharam e desejaram.
É claro que essas figuras não são inteiramente reais, da realidade estrita, efémera e tangível. Criei-as, ou antes, completei-as com a minha alma, com o meu próprio ideal.
Quem vir neste livrinho somente o lado externo e literário, a forma, a paisagem, a pintura rústica, não o entendeu, nem o soube ler.”

Câmara: Bruno Lopes, Pedro Rocha, Gonçalo Santiago
Edição: Gonçalo Santiago