Revisitar | Descobrir Guerra Junqueiro


Manuscritos de Guerra Junqueiro: um tesouro?

Desculpem-me o tom personalizado, mas julgo que se justifica.

Foi invulgar a noite de ontem, 13 de Julho. Pouco passava das 21h e o meu telemóvel tornou-se frenético. Apenas na curta duração do primeiro telefonema, registou 12 chamadas não atendidas. Pouco depois já reclamava carga da bateria. Porquê? Porque “Cerca de mil folhas presumivelmente manuscritas pelo poeta Guerra Junqueiro, no final do século XIX, foram entregues ao proprietário da Livraria Lello, Antero Braga”.

Na sequência daqueles telefonemas chegou-me um de Miguel Soares, jornalista responsável pela edição de alguns dos noticiários da noite da Antena 1. Como reagia eu à notícia, avançada por aquela rádio, às 21h, em primeira mão? Como podia reagir se apenas a conhecia por terceiros?

O jornal das 21h estava já disponível online. Ouvi-o e, escassos minutos após, regia em directo, no jornal das 22h. Grosso modo, foi isto que disse:

a confirmar-se a autoria destes textos por parte de Guerra Junqueiro, a minha primeira reacção é de um contentamento muito grande. Depois, estou completamente de acordo que, a ser verdade, o espólio deve ficar em Portugal e numa instituição que o proteja, que o estude e o disponibilize aos investigadores e não o guarde a sete chaves. Todavia, tenho algumas reservas.

É um facto que Guerra Junqueiro teve projectos que não conseguiu concluir, designadamente a “Unidade do Ser” e alguns outros. Todavia, se a caligrafia de Guerra Junqueiro é, de facto, inimitável, o seu estilo também o é. Por conseguinte – uma vez que não tive ainda qualquer contacto com o referido espólio – e apenas com base nos 2 ou 3 versos que ouvi ler ao Sr. Antero Braga, lamento muito, mas suscitam-me dúvidas. Quase arriscaria  – assim a quente -, dizer que os versos que ouvimos ler no fecho do noticiário das 21h são textos psicografados. Não importará agora explicar o que isso seja. Importará, talvez, sublinhar o meu cepticismo. Ficaria muito contente que ele ruísse. Mas isso só acontecerá diante dos referidos manuscritos.

O que ontem disse mantenho hoje. Foram, entretanto, disponibilizadas fotografias de alguns documentos:

http://tv2.rtp.pt/noticias/?t=Ineditos-de-Guerra-Junqueiro-na-livraria-Lello.rtp&article=460625&visual=3&layout=10&tm=4

Com base nelas, sem qualquer hesitação, digo que a caligrafia ali patente não é de Guerra Junqueiro.

Entretanto, por gentil telefonema do Sr. Antero Braga, actual proprietário da Livraria Lello, acordámos que, durante a próxima semana, nos deslocaríamos ao Banco onde os documentos se encontram prudentemente guardados.

(Queira Deus que a montanha não tenha parido um sorridente ratinho).

Henrique Manuel Pereira

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